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Pescadores prestam devoção Nossa Senhora do Rosário de Troia

Pubicado em 30 August 2005

Especial

Devoção, festa, convivio, sol e praia. Motivações diversas que trazem a Tróia todos os anos milhares de pessoas para a romaria de Nossa Senhora do Rosário de Troia.
São pescadores e familias ou simples curiosos. Encontram-se ano após ano. Pescadores e devotos regressam todos os anos para pedirem à Santa de Tróia protecção no mar, os curiosos vêm pela diversão da festa ou simplesmente pelo convivio.
Durante três dias a caldeira de Troia é o cenário para um acampamento selvagem tendo como pano de fundo o Rio Sado, Setúbal e Tróia.
O rimbombar dos foguetes que encoam em Setúbal é ponto de partida da imagem que é transportada em barco de pescadores. Este ano coube ao pesqueiro Argonauta a tarefa de levar a Santa à igreja de Troia.
130 embarcações, muitas delas engalanadas para a ocasião, juntam-se em cortejo e transportam outros santos. Cerca de uma hora depois a chegada a Troia é carregada de simbolismo.
Tradição centenária a romaria da Sra do Rosário de Troia é ponto de encontro de gerações, muita gente diz que os jovens estão a voltar.
Este é também lugar para se recordarem memórias de uma vida dedicada ao mar, o mesmo mar que ultrapassou gerações nas lides da faina.
Luis Gangas, 53 anos, filho e neto de pescadores, começou na lide do mar aos 12 anos. O pescador recorda os tempos em que viveu na caldeira de Troia, numa cabana de caniços ou debaixo de uma vela de um barco. O pai fazia ali a sua vida, não precisava de sair daqui, havia peixe e caça. Perdem-se nos tempos as suas lembranças quanto a esta festa, recorda-se isso sim que antigamente vinham essencialmente os pescadores.
Nos dias em que decorre a festa o cenário muda a cada mudança de maré.
Na maré cheia os barcos ondulam ao sabor das ondas, os visitantes da margem direita aproveitam esta altura para tomar banhos de sol e mar. Na mudança de maré juntam-se todos na margem esquerda onde decorre a festa e animação, com um pequeno senão têm de passar pela colónia de caranguejos que teimosamente cruzam o caminho. As crianças brincam no meio da caldeira, em torno dos barcos que agora estão em seco. Ao mesmo tempo as manhãs são passadas a catar conquilhas e canivetes. De pacote de sal em punho muitos são aqueles que fazem sair dos pequenos orificios, na areia, os pequenos canivetes que serão repasto para o final da tarde, há quem diga que estes últimos estão a desaparecer fruto de muita procura.
Os dias são marcados também pelas celebrações religiosas que decorrem na pequena capela, pequena para comportar tanta gente, o maior serviço religioso é feito ao ar livre no domingo, dia previligiado para ouvir a palavra de deus. No mesmo dia a celebração religiosa é precedida de procissão pelo areal, acompanhada pela banda dos bombeiros de Setúbal e por muitos pescadores e seus familiares que já fizeram este caminho por diversas vezes.
Maria Guilhermina, 67 anos, desde pequena que foi habituada a vir a esta festa.
O avô, pai e irmãos sempre estiveram ligados ao mar. Maria Guilhermina emociona-se dizendo que esta é uma das festas mais bonitas que conhece. Esta familiar de pescadores desabafa que a festa está muito diferente do que era na sua infância e na adolescêcia. Naquela altura a festa era dos pescadores, só os mais velhos ligavam à romaria, hoje é uma festa de todos, o que de qualquer maneira não lhe desagrada porque diz, a fé é de quem a tem.
E se alguns vêm pela devoção outros vêm pelo convivio. Maria Cristina e Maria Diogo, familiares de pescadores, vêm há muitos anos para a caldeira nesta altura. Hoje a familia directa vem toda, e todos os anos são cada vez mais os amigos e familiares que se juntam a eles, tornou-se também na festa das familias, este ano são um grupo de mais de uma dezena. Alia-se a beleza da festa à praia, convivio e tradição.
Uma tradição que tem origem segundo Graça Andrade, estudiosa desta romaria, nos agricultores do sul de Troia. No início do século XIX, 4 sacristões das freguesias da Nª Sra da Anunciada, S. Sebastião, Santa Maria, S. Julião impulsionaram a romaria com a adesão, na altura, dos pescadores varinos vindos de vindos da zona de Aveiro e da Murtosa.
A festa com o cariz que hoje tem deverá ter cerca de 100 anos.
O ponto alto acontece na segunda feira, 3º dia de festa, em que se realiza o Siro, a maior procissão maritima do evento e que junta os barcos engalanados e cheios de seguidores.
Mais uma vez o Argonauta tem o previlégio de transportar a santa da devoção destes pescadores.
A festa está a terminar mas todos já pensam na festa do ano que vem, altura em que o ritual se repete.

Fotos: Graça Andrade

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