Arquivado | FMM, Música

FMM 2006

Pubicado em 27 September 2006

Fotos: Mário Pires

Opinião: João Pereira da Silva
Este foi o melhor Festival Músicas do Mundo de Sines

Esta foi a melhor edição do ponto de vista da organização, que vem num crescendo sucessivo ao longo dos últimos anos.
Foram 24 concertos entre Porto Covo e Sines o que veio engrandecer o festival. Por outro lado serviu para testar a capacidade organizativa do festival que está em picos excelentes.

Uma organização vasta, liderada por Carlos Seixas, que ao longo de 9 dias fez o melhor, o que tem sido conseguido e demonstrado, não só com o público mas também pelos artistas, que gostam de tocar, são bem recebidos. Sintoma disto são os bastidores onde se vive um excelente ambiente.
Do ponto de vista musical e técnico, há ainda alguns problemas que não têm a ver com a organização, mas sobretudo com o som e com os técnicos de som. Ainda assim nota-se uma enorme melhoria. E digo isto porque há situações complicadas de controlo de som, sobretudo no Castelo, e que tem a ver com o vento que não é fácil dominar, mas em nada belisca a qualidade dos espectáculos.
Do ponto de vista das músicas presentes continua a mesma tradição, a variedade, e que este ano foi do médio oriente até aos EUA, passando por Cabo Verde, muita Africa, foi uma excelente escolha e um excelente cartaz.
Este ano ficaram-me na memória os Vaguement La Jungle que deram um excelente espectáculo, não pela qualidade da música em si, mas porque são muito divertidos em palco. Eles animaram a noite toda e apenas com simples palavras como por exemplo o célebre patati-patata que mexeu com todo o público e que foi uma festa pegada do principio ao fim. Eles são quatro deliciosamente loucos mas que proporcionaram uma grande festa.
Na memória ficaram também os Actores Alidos porque a proposta era diferente. Trouxeram as polifonias da Sardenha, que habitualmente são propostas cantadas por homens. Elas fazem a diferença, são mulheres a cantar e demonstram que é possível interpretar polifonias, que não só os homens, e acompanhadas por um multi- instrumentista, o Orlando Mastia, que é uma fabulosa gaita de foles humana e que consegue estar a soprar tempos intermináveis.
Destacaria no castelo o oitavo dia de festival, que foi provavelmente o mais equilibrado e o melhor dia de todos os Festivais Musicas do Mundo até agora realizados em Sines.
Eu destacava os The Bad Plus, a banda norte americana, que trouxeram um jazz contemporâneo com muitas reminiscências dos anos 70, provavelmente a melhor fase do jazz contemporâneo, e que eles ainda hoje conservam.
Depois o Trilok Gurtu considerado um dos melhores percussionistas do mundo que deu em Sines um concerto fabuloso, onde esteve presente toda a tradição indiana mas com um acompanhamento de percussão de Trilok Gurtu a provar que é um dos melhores percussionistas do mundo.
O Tony Allen a fechar o oitavo dia é outro nome em destaque. Um senhor com 66 anos, com uma fraquinha figura do ponto de vista visual mas que é um senhor fabuloso, com um espírito fabuloso, que conseguiu estar a animar durante quase duas horas um conjunto de jovens, é um grande maestro sem duvida.
Obviamente houve depois toda uma série de outras propostas, a diferença da Frida Habass como representante do Iraque, o Rabih Abou-Khalil que deu um grande concerto em condições muito complicadas uma vez que ele saiu ainda há semana de uma situação muito delicada do Líbano, mas que conseguiu ainda assim dar um grande espectáculo.
Houve ainda o grupo K´Naan um som fabuloso, um rapper mas com uma capacidade vocal e interpretativa fabulosa, agarrou o público desde o principio.
Há ainda Vusi Mahlasela pela diferença, ele apresentou-se em palco apenas com a sua guitarra mas um senhor de uma voz fabulosa, contou histórias da África do Sul sobretudo daquilo que foi e significou o apartheid para os negros, um grito de revolta à semelhança do que acontece no Sahara Ocidental com Mariem hassam, esta última deu um concerto muito intimista, é uma soprano a interpretar a música do seu povo mas de uma forma brilhante.
Também Nuru Kane, o Toumani Diabaté um grande tocador de kora que deu uma lição de kora no palco e explorou as capacidades sonoras deste instrumento, um instrumento curiosíssimo que parece uma harpa africana com um timbre sonoro lindíssimo.
No último dia gostei dos brasileiros Cordel de Fogo Encantado, dos Varttina, este ultimo um grupo com muita força de som e uma capacidade vocal das vocalistas numa polifonia muito curiosa e a fechar o Seun Kuti.
Penso que este ano o Festival Músicas do Mundo de Sines se afirmou muito pelo lado da percussão e da bateria tiveram aqui excelentes percussionistas e bateristas ao nível dos melhores do mundo.
A prestação portuguesa foi este ano menos positiva, achei o concerto dos Dazkarieh o menos conseguido de todos, infelizmente é português. Isso poderá ter a ver com o facto do projecto que trouxeram a Porto Covo ser ainda um projecto em maturação, é um projecto novo e não está consolidado. Eles estão a tocar com a cantora Joana Negrão que ainda não está adaptada, está a trabalhar apenas há um mês e meio com o grupo, e sentiu-se essa imaturidade do projecto. A proposta dos Dazkarieh tem neste momento espaço para crescer falta-lhes é estrada. Não foi um concerto totalmente conseguido, mas também não foi um mau concerto.
Em relação aos Gaiteiros, o concerto também não foi brilhante. Os gaiteiros que nos habituaram a um tipo de música diferente, eu senti que no inicio do espectáculo entraram nervosos, houve alguns desentendimentos e isso provavelmente depois não permitiu que o resto do concerto não fosse o melhor.

Festival da diversidade encerra portas

O festival Músicas do Mundo chegou esta noite ao fim. Foram muitos milhares aqueles que invadiram as muralhas do Castelo de Sines. A noite foi inspiradora e o encantamento do público foi notória pela forma como comunicaram com os artistas.
A noite começou por aquecer com as enebriantes Varttina e o folk escandinavo, e continuou com as histórias encantadas so sertão brasileiro. Os Cordel de Fogo Encantado prometiam incendiar musicalmente o Castelo de Sines e não desiludiram fazendo do público parte do espectáculo.
As portas do Castelo encerraram com mais um dos musicos do clã Kuti, Seun Kuti, filho mais novo de Fermi Kuti que esteve no festival em 2004.
A edição mais extensa do festival teve este ano 24 concertos com mais de centena e meia de músicos, 4 palcos, superou o número de espectadores e número de credenciações de jornalistas a cobrir o evento.
O maior evento da word music nacional volta a despertar em Julho de 2007 com mais novidades.

Castelo de Sines recebe esta noite as últimas músicas de 2006

O Castelo de Sines, mitico lugar que anualmente recebe o FMM, tem esta noite a sua derradeira noite com música vinda dos continentes africano, sul americano e europeu.
Á semelhança de outras noites espera-se casa cheia para aquele que é o maior festival do género do nosso país.
Mariem Hassan
Era uma vez um país tão esquecido no deserto e nos cadernos de política internacional, que só quando uma mulher cantava o mundo se lembrava dele. Em 1975, quando Espanha abandona o território do Sahara Ocidental e os marroquinos o reclamam para si, começa a guerra da independência. A jovem Mariem Hassan, como milhares de saharauís, refugia-se na Argélia. A vida dura dos acampamentos é humanizada através da criação de grupos musicais e Mariem envolve-se neles desde cedo. Muitos anos depois, vai viver para Espanha, onde participa em projectos que divulgam a cultura e a luta saharauí no mundo e acaba, já no novo milénio, por encetar uma carreira a solo. Compositora e letrista, Mariem canta com uma intensidade dilacerante Deus, o amor, mas também o sofrimento do seu povo e a esperança de voltar a casa. Em palco, com o tambor tebal nas mãos, canta e baila delicadamente, contra uma brilhante retaguarda de cordas acústicas e eléctricas e cúmplices vozes de apoio. Sublimes blues do deserto, secos e profundos como os céus saharauís, para acolher a chegada da noite no FMM.
Varttina
Das noites brancas, das escuras florestas do norte da Europa com as suas bruxas, fadas e elfos, chega um dos casos mais bem sucedidos da folk mundial das últimas décadas. A cantar desde 1983, as Värttinä transmitem uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e poesia popular da Carélia, uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia. Tensas, por vezes ferozes, mas sempre harmónica e timbricamente muito belas, as vozes de Johanna Virtanen, Susan Aho e Aija Puurtinen (que substitui provisoriamente Mari Kaasinen) são o coração das Värttinä. A suportá-las, seis músicos acústicos (que tocam saxofone, guitarra, acordeão, violino, bateria e outros instrumentos), cujo trabalho parece ganhar recentemente maior evidência no som global da banda. Os finlandeses, que este ano também já participaram da composição da versão musical do “Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien, nos palcos canadianos desde Março, editaram recentemente o seu 11.º disco, “Miero”, um dos mais elogiados da sua carreira. Será ele a base do concerto em Sines de um dos grupos mais marcantes do movimento das músicas do mundo.

Cordel de Fogo Encantado
Numa feira poeirenta do interior do sertão brasileiro, um velho conta histórias de reis e dragões, de santos e bandidos, do princípio e do fim do mundo. De repente, o céu enche-se de raios e trovões e uma chuva diluviana cai sobre o povo e mata a seca. A música do jovem quinteto pernambucano Cordel do Fogo Encantado, um dos mais premiados projectos da música brasileira dos últimos anos, tem tido este efeito refrescante no imaginário rural do Nordeste. Inicialmente um espectáculo teatral, o grupo, formado em 1997 e com dois discos gravados, funde várias tradições musicais e narrativas sertanejas, dos cantadores aos emboladores, dos repentistas aos autores de cordéis, folhetos de histórias vendidos nas feiras. A essa fusão juntam-se tradições índias, folclore e a força demolidora dos tambores de culto africano, uma das suas principais marcas, a par das texturas do violão e do carisma do poeta e vocalista psicadélico Lirinha. Moderno mas também primitivo, do texto mas também do corpo, o altamente cénico espectáculo do Cordel faz no FMM a sua estreia em Portugal.


Seun Kuti e Egypt 80

Há artistas com um impacto tão transcendente na música e na sociedade em que vivem, que acabam por formar os seus próprios reinos, desenvolver as suas próprias linhagens. Seun, 23 anos, é o filho mais novo de Fela Kuti, a figura régia do afrobeat, combinação dinamítica de ritmos africanos, funk e jazz que pôs a Nigéria no mapa musical do século XX. Como todos os príncipes-herdeiros (título que no afrobeat partilha com o meio-irmão Femi), Seun começou cedo a ser educado para a função. Aos 9 anos, já cantava coros nos concertos de Fela, e nos últimos da vida do pai viveu junto dele, absorvendo tudo quanto lhe ensinava. Fela morre em 1997, e, aceite nessa posição pelos veteranos da última banda do pai, os Egypt 80, Seun começa a assumir a renovação do legado. Mantendo o tom político e social nas letras, refinando-se no saxofone e enriquecendo o afrobeat com outras músicas da sua formação (como o hip-hop), Seun é o mesmo dínamo em palco que era o seu pai. Para o concerto de Sines, uma surpresa: o baterista Tony Allen, o “Sancho Pança” do afrobeat, junta-se aos Egypt 80 para o fogo-de-artifício.


Ivo Papasov

Dizem que o amor não é mau motivo para casar, mas para um jovem balcânico ter Ivo Papasov a tocar na boda também há-de estar no topo da lista. Nascido em 1952, na fronteira da Bulgária com a Grécia e a Turquia, Papasov cresce numa família cigana onde o clarinete é tocado profissionalmente há gerações. Formado neste meio, Ivo não demora muito tempo a fazer da sua a melhor e mais solicitada orquestra de casamentos da região. Problemas com a ditadura, que nunca conseguiu domar a cultura cigana como pretendia, levam-no à prisão nos anos 80, mas isso só faz crescer a sua popularidade junto do povo búlgaro e atrair sobre ele a atenção internacional. Hoje, Papasov é aclamado como um dos maiores clarinetistas do mundo, com carta de referência de um músico tão especial quanto Frank Zappa. Rei da frenética e festiva stambolovo (música de casamento), Ivo é também visto como um enorme criador de jazz, pela forma como interage com a sua orquestra e improvisa sobre os vários ritmos da sua Trácia. A fechar o FMM2006, na Avenida da Praia, a música da celebração do amor.

Penúltimo dia de FMM apresenta Tony Allen na Avenida da Praia

As sonoridades das músicas do Senegal, Iraque, Estado Unidos, Índia e Nigéria marcam esta penúltima noite de FMM, a segunda no Castelo de Sines.
Depois da actuação de Nuru Kane e Bayefall Gnawa, do Senegal, na Av. da Praia ao final da tarde a música tradicional do Iraque com Farida e Iraqi Maqam Ensemble aqueceram aqueles que estivaram no Castelo de Sines.
Uma noite cheia com grandes nomes da word music, mas onde o nome mais aguradado é Tony Allen na Av. da Praia.
Antes disso Actuam ainda no Castelo os The Bad Plus dos Estados Unidos e Trilok Gurtu e The Misra Brothers da India.


Nuru Kane e Bayefall Gnawa

O SENEGALÊS Nuru Kane tem a história romântica de um homem transformado por uma viagem. Emigrado em Paris, decide visitar Marrakesh, e no famoso mercado de Djemaa el-Fna ouve um homem a tocar num alaúde de três cordas uma música que lhe lembra a sua terra. Essa música era o gnawa, música de transe das irmandades muçulmanas de descendentes de escravos negros que, há muito tempo, foram trazidos da África Ocidental para Marrocos. Nuru, que tinha experiência a cantar e tocar em bandas de festa de tom funk incaracterístico, apaixona-se por essa música dos seus distantes antepassados, decide aprender o instrumento que o tinha encantado (o guimbri) e começa finalmente a traçar o seu caminho. Nesse caminho, que tem no disco “Sigil” (2006) o principal documento, confluem a alma rítmica senegalesa e o gnawa, mas também os blues de Ali Farka Touré e algum reggae e Afrobeat. Uma verdadeira fusão afro tendencialmente acústica, entre a sedução contemplativa e a explosão rítmica, para descobrir no FMM2006.
Farida e Iraqi Maqam Ensemble
UMA DAS mais carismáticas e impressionantes intérpretes femininas no circuito da world music, a “voz da Mesopotâmia”, abre a segunda noite de concertos no Castelo. A cantora Farida Muhammad Abbas nasceu na cidade iraquiana de Kerbala (um dos centros espirituais do Islão) em 1963 e tem tido uma vida artística marcada por ultrapassagens de barreiras. Aluna de Munir Bachir, o grande mestre iraquiano do alaúde, foi com o encorajamento do seu professor que se dedicou ao maqam, uma forma musical clássica mas muito aberta à improvisação que, tradicionalmente, foi vedada ao sexo feminino. Hoje é a única mulher do mundo árabe a ensiná-la. Presença imponente em palco e dona de uma voz poderosa, Farida tem conquistado audiências tão diferentes quanto as do Médio Oriente, da Europa e dos EUA. Em Sines, na companhia do grupo de seis instrumentistas que compõem o Iraqi Maqam Ensemble, mostrará uma selecção especialmente festiva do seu repertório.
The Bad Plus
HÁ poucos géneros de música tão capazes de se transformar quanto o jazz, mas às vezes é preciso provocá-lo um pouco para que não se esqueça de que foi também por não se levar demasiado a sério que se tornou grande. Humor, energia e total ausência de complexos são bom pontos de partida para caracterizar The Bad Plus, o trio americano formado em 2000 que está a trazer novos públicos para o jazz e, segundo a crítica, ocupa a vanguarda na procura de novos caminhos para o género. Composto por Reid Anderson no contrabaixo, Ethan Iverson no piano e David King na bateria, The Bad Plus não fingem que não vivemos todos rodeados de pop-rock, da sua atitude, das suas melodias. O seu jazz está repleto de covers de grupos como Nirvana, Black Sabbath, Blondie ou Aphex Twin, mas é sobretudo na paixão com que é tocado que se nota o contributo de outras músicas populares. O resultado não é um jazz mais simples por dialogar com o rock ou a electrónica, é um jazz acústico ainda mais complexo e sem concessões, tocado por três virtuosos.


Trilok Gurtu e The Misra Brothers

Esta é a história de um filho pródigo, que depois de correr o mundo, de experimentar tudo o que havia a experimentar, decide voltar a casa, porque neste momento da sua vida não há maior aventura do que estar com os seus. Trilok Gurtu, eleito cinco vezes o melhor percussionista do planeta pela revista Downbeat, nasceu em Bombaím, em 1951, numa família de músicos. Estuda tablas desde os seis anos, mas cedo começa a interessar-se pela música ocidental. Em 1973, emigra para o EUA e depois para a Europa. A partir daí começa um percurso que o vai levar a colaborações com artistas tão diferentes quanto Pat Metheny, Jan Garbarek ou Nitin Sawhney. Do jazz ao rock, da Índia a África, da China ao Brasil, Trilok revela-se insuperável na ligação criativa dos mais diferentes ritmos do mundo. Em 2006, porém, está de volta à tradição acústica indiana, fazendo-se acompanhar por dois dos seus maiores cantores, Rajan e Sajan Misra, mestres do khylal, um canto virtuoso ornamentado e aberto à improvisação.
Tony Allen
Há bateristas que se atiram para cima do seu instrumento, frenéticos, com o corpo todo. E depois há Tony Allen, que usa as baquetas e os pedais como se tivesse mil braços e mil pés, mas o rosto é uma esfinge, o tronco mal se move. Porquê? Porque para produzir grande ritmo não basta força física, é preciso pensar. Mas não se julgue que, aquele que Brian Eno considerou o maior baterista do mundo dos últimos 50 anos, é um músico reservado. Pelo contrário, Allen está no centro da criação de uma das mais extrovertidas músicas africanas. A partir de meados da década de 60, e sobretudo na década seguinte, enquanto director oficioso dos Africa 70, ajuda o mítico Fela Kuti a inventar o afrobeat, mistura de ritmos tradicionais da África Ocidental com jazz e funk americanos. Hoje, com mais de 30 anos de trabalho em nome próprio, o afrobeat mantém-se a matriz das suas composições, mas, fazendo jus à natureza mestiça do género, prossegue a abertura a outras músicas, como o dub, a electrónica ou o hip-hop. Sofisticadíssima música de dança para uma madrugada inesquecível à beira da praia.

5 dias em Porto Covo
FMM começa em Porto Covo

O brasileiro FRANCIS HIME e a cabo verdeana MAYRA ANDRADE abriram ontem à noite, em Porto Covo, o programa musical do Festival Músicas do Mundo. O festival abriu com um dos grandes compositores brasileiros das últimas décadas. Maestro e pianista, Francis Hime compôs com artistas como Vinicius de Moraes e Chico Buarque algumas das mais belas canções brasileiras da segunda metade do século XX. Ao piano, apresenta em Porto Covo o melhor da sua obra
Já Mayra Andrade é uma das cantoras em mais rápida ascensão na música cabo-verdiana., Mayra Andrade destaca-se pela forma quente como aborda o lado mais solar da música do seu país. Com pouco mais de 20 anos e já com um dueto com o mítico Charles Aznavour no currículo, Mayra acaba de lançar o seu primeiro disco, “Navega”.
O Festival continua por estes dias em Porto Covo (até 25) e prossegue este noite com o saxofonista e compositor, o sérvio Boris Kovac, um dos mais produtivos e respeitados músicos europeus da actualidade que é acompanhado pela banda La Campanella. Esta noite os visistantes deste festival podem esperar o repertório do seu disco de 2005, “World After History”, onde se cruzam os ritmos da multi-étnica Vojvodina, de onde é originário, e várias músicas do Mediterrâneo.
Francis Hime
Uma noite no final dos anos 50, jovem estudante de música erudita na Suíça, Francis Hime, ouve a tocar na rádio a canção “Felicidade”, de António Carlos Jobim e Vinicius de Moraes. É um momento de viragem da sua vida e a descoberta do caminho que vai procurar seguir na sua carreira, o cruzamento entre a música clássica e a música popular. Maestro, com formação em piano, afirma-se definitivamente, a partir da década de 60, ao compor, em parceria com artistas como Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Paulo César Pinheiro, algumas das mais belas canções brasileiras da segunda metade do séc. XX. O espectáculo que abre o programa musical do FMM é, entre o intimismo e momentos de grande vibração, uma celebração da obra de Francis. É assim que o próprio o apresenta: “No show conto as histórias de algumas dessas canções e como pensei cada uma delas para as vozes que as interpretam originalmente”.
Mayra Andrade
Se Cesária Évora precisou de se tornar uma mulher madura para que o seu valor fosse reconhecido, o erro não se repetirá com Mayra Andrade. Com pouco mais de 20 anos, aquela que tem vindo a ser designada unanimemente como uma das mais promissoras aspirantes à sucessão da “diva dos pés descalços” é já um retrato cristalino de talento e personalidade. Mayra tem a biografia nómada típica de um cabo-verdiano. Nasceu em Cuba, viveu em Cabo Verde, no Senegal, em Angola e na Alemanha, mas encontrou em França os seus ouvintes mais entusiasmados e inteligentes, um dos quais Charles Aznavour, que a convidou para cantar um dueto com ele em 2005. Com uma voz quente e um grande sentido cénico, Mayra interpreta todos os estilos clássicos da música do arquipélago, da morna ao funaná, da coladera ao batuque, mas a sua abordagem é a de uma nativa da ilha de Santiago, alegre, com fortes afinidades com a música negra do Brasil. “Navega”, o seu disco de estreia a solo, foi lançado em Maio.
Boris Kovač e La Campanella
Um dos mais activos e respeitados músicos europeus, o saxofonista e compositor sérvio Boris Kovač não está optimista sobre o estado do mundo. No entanto, é um homem prático: se é inevitável a ruína à nossa volta, que seja ao menos ao som de boa música. “World After History”, o disco de 2005 que traz a Sines, já foi descrito como um “cabaret apocalíptico”, mas não se pense que é um território de bestas, gárgulas e chuvas de fogo. O fim do mundo de Kovač é doce como mel, onde a nostalgia domina, mas também há espaço para a alegria. Porque o mote é, afinal, “Queremos fazê-lo feliz, nem que seja por esta noite”. À frente da banda La Campanella, uma mistura de meios-sérvios, meios-húngaros e meios-macedónios, tão típica da sua multi-étnica Vojvodina, Kovač faz-nos ouvir música arreigada nas planícies do Leste, mas onde sopram também os ventos quentes do Mediterrâneo. Toca-se elegias e baladas, baila-se tangos, marchas e valsas, soam momentos de swing e guitarras tangem acordes flamencos.
Actores Alidos
Poucos pontos de paragem são tão obrigatórios para se conhecer a extraordinária expressividade da polifonia europeia quanto a Sardenha. São famosos os seus coros masculinos – como os Tenores di Bitti ou o Coro di Orune – e durante muito tempo o género foi na ilha reservado aos homens. Mas as cinco mulheres dos Actores Alidos – Alessandra Leo, Roberta Locci, Valeria Parisi, Manuela Sanna e Valeria Pilia – têm procurado, desde 1990, provar que a polifonia nada perde, apenas se transforma quando cantada no feminino. Cantigas de embalar, cantos fúnebres e litúrgicos, serenatas e danças populares, são interpretadas com uma técnica vocal muscular, que leva as vozes femininas a graves impensáveis e cria um timbre duro à primeira escuta, mas rapidamente sublimado pela beleza do jogo harmónico. O único homem do grupo, Orlando Mascia, dialoga com o quinteto de vozes através de vários instrumentos tradicionais, do organetto, espécie de acordeão, à launedda, uma flauta tripla. No todo, um ambiente sonoro tão exigente quanto comovente e compensador.
Vaguement la Jungle
Selvagem, mas estimulante e cheia de vida, enfim, vagamente a selva em forma de música, é o que nos propõe este comunicativo quarteto, conhecido em França pelos seus concertos cheios de energia e bom humor. Conhecendo-se a trabalhar nas ruas de Nantes, os quatro músicos de Vaguement la Jungle, juntos desde 2000, têm formações muito distintas. O guitarrista, Hervé Menuet, é um filho do rock e do jazz manouche. Pierre Bloch, o violinista, é um admirador das músicas do leste europeu. Jacques Metivier, o acordeonista, cresceu na cultura do musette. E Jean François Guedon, o baterista, formou-se no funk e R&B. Já com dois discos gravados – “Tchavalé” (2000) e “Aïe, Aïe, Aïe” (2003) – Vaguement la Jungle não desperdiça nada do que cada músico traz por si e ainda aproveita o que só dá o convívio. É um caldeirão borbulhante de música cigana e judia, jazz e rock n’ roll, servido com muita improvisação e letras libertárias.
Dazkarieh
Embora não pareça, há poucos projectos musicais no nosso país tão genuinamente portugueses quanto os Dazkarieh. Não é afinal o melhor da alma portuguesa a pulsão de viajar pelo mundo, de descobrir o outro, de viver as culturas mais díspares como se fossem a sua? Com membros vindos do rock, da música tradicional e da música erudita e experimental, os Dazkarieh, formados em 1999, fazem exactamente isso: criar, de forma consistente, sobre uma impressionante diversidade de tradições musicais. No espaço de um disco ou de um concerto, os Dazkarieh navegam entre lugares tão distantes e distintos quando a Irlanda e a Índia, a África e o Andes, a Espanha e os Balcãs, não dispensando, obviamente, paragens para retempero de forças em Portugal. A instrumentação vai ficando cada vez mais rica pelo caminho. Ouve-se o bouzouki e a flauta transversal, a nyckelharpa e o cavaquinho, a gaita transmontana e o bandolim.
Eliseo Parra
“DE AYER Mañana”, o título do disco mais recente de Eliseo Parra, não podia ser mais preciso como resumo da sua identidade musical. Fazendo conviver como poucos o ontem (“ayer”) e o amanhã (“mañana”), Eliseo é hoje um dos mais estimulantes músicos de raiz tradicional da Europa, como comprova a sua inclusão na lista dos melhores de 2005 publicada recentemente pela prestigiada revista fRoots. Iniciando-se como músico de rock, de jazz e até como membro de várias orquestras de salsa, Eliseo começa em 1983 a investigar as músicas tradicionais das “tribos hispânicas”, registando as suas recolhas em vários discos e livros. Considerado um dos maiores musicólogos espanhóis, Parra acredita que a única forma de o folclore sobreviver não é fechado nos museus, é respirando no palco. Sobre um repertório onde dominam os ritmos de dança, as velhas músicas das Espanhas tornam-se com Eliseo músicas do nosso tempo e do futuro.

FMM Palco das sonoridades do mundo

O Festival Músicas do Mundo de Sines, o maior do seu género no nosso país, tem em 2006 o mais vasto programa de sempre, com 23 concertos e mais iniciativas paralelas.
A MELHOR música que se faz no mundo volta, em Julho, a ter o seu maior palco português no Festival Músicas do Mundo de Sines. Com iniciativas paralelas, no novo Centro de Artes de Sines, logo a partir do início do mês, o FMM tem este ano o programa de concertos concentrado entre os dias 21 e 29 de Julho. De 21 a 25 há música todos os dias no palco reforçado de Porto Covo, e entre 26 e 29 decorre o programa musical intensivo na cidade, com concertos na Avenida da Praia e no Castelo.
Cinco noites de concertos em Porto Covo. Uma das cantoras em mais rápida ascensão na música cabo-verdiana, Mayra Andrade, abre o festival, dia 21, sexta-feira, na aldeia de Porto Covo. Com pouco mais de 20 anos, Mayra já tem um dueto com o mítico Charles Aznavour no currículo e acaba de lançar o seu primeiro disco, “Navega”.
Saxofonista e compositor, o sérvio Boris Kovac é um dos mais produtivos e respeitados músicos europeus da actualidade. Acompanhado da banda La Campanella, traz ao FMM, dia 22, o repertório do seu disco de 2005, “World After History”, onde a música da sua Vojvodina natal se cruza com várias músicas latinas.
O grupo Actores Alidos propõe, dia 23, uma visão no feminino da extraordinária polifonia da Sardenha, com um coro de cinco cantoras e o multi-instrumentista Orlando Mascia, um dos maiores conhecedores da música sarda.
Dia 24, apresenta-se o quarteto Vaguement la Jungle. A combinação de estilos – do jazz manouche ao klezmer, do rock n’ roll à música cigana – aliada às letras libertárias e à muita improvisação prometem uma noite de festa em Porto Covo.
O último dia de música na aldeia, 25 de Julho, tem dois concertos.
Primeiro, uma banda portuguesa de som “intercontinental”. Embora regressando sempre ao seu país, os Dazkarieh são capazes de navegar entre sons tão diferentes quantos os da Irlanda ou da Índia, da África ou dos Andes, da Espanha ou dos Balcãs.
Depois dos Dazkarieh, Eliseo Parra, um dos maiores conhecedores e inovadores do folclore espanhol, incluído na lista dos melhores músicos de raiz tradicional de 2005 organizada pela prestigiada revista fRoots.
Em Sines a música sobe ao ao palco a partir de 26 de Julho, com dois concertos no palco da Avenida da Praia: Jacques Pellen “Celtic Procession”, a partir das 22h00, e K’Naan, a partir das 00h00.
Dia 27, quinta-feira, a música começa às 19h00 na Avenida da Praia, com o sulafricano
Vusi Mahlasela.
O privilégio de abrir os concertos no Castelo cabe este ano ao grupo mais experimental e auto-irónico da música portuguesa de raiz tradicional. Criadores de novas músicas e novos instrumentos, os Gaiteiros de Lisboa mostram, a partir das 21h30, a refinação bem humorada das experiências que andaram a fazer em “Sátiro”, o seu disco mais recente.
Segue-se o Trio Rabih Abou-Khalil & Joachim Kühn, Toumani Diabaté, este último vencedor de um Grammy em 2005.
No mesmo dia a música prosegue na Praia, com a música dos finlandeses Alamaailman Vasarat.
O senegalês Nuru Kane inaugura as hostes na Praia Vasco da Gama no dia 28 a que se seguem depois no castelo as actuações dos americanos The Bad Plus, indiano Trilok Gurtu e a grande figura da música do Zimbabué Thomas Mapfumo. A noite termina na Avenida da Praia com Tony Allen.
O último dia do FMM é aberto, às 19h00, na Av. da Praia, pela voz comovente da nação saharauí com Mariem Hassan e segue no Castelo com as melhores vozes femininas da folk escandinava, as Värttinä, o Cordel do Fogo Encantado, um dos mais premiados projectos da nova música brasileira, reinventa as tradições narrativas do sertão nordestino, o nigeriano Seun Kuti, vocalista, saxofonista e compositor, é aos 23 anos um impressionante animal de palco.
O FMM acaba com a mais festiva música cigana, pelo clarinetista búlgaro Ivo Papasov e a sua Wedding Band, às 03h00, na Av. da Praia. Ao fim da noite de concertos, há sessões de DJing no palco da praia.
O Festival Músicas do Mundo tem em 2006 um novo espaço, o Centro de Artes de Sines. Será aí que se realizarão todas as iniciativas paralelas aos concertos. Este ano, haverá exposições, ciclo de cinema documental, workshops / master-classes com grandes músicos mundiais, conversas com escritores e artistas do festival, feira do livro e do disco, animação de rua, concertos e jam sessions e muito mais.

Noticia publicada por:

Claudio J. - que publicou 1376 noticias no Alentejo Magazine.


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