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3.º Festival Terras sem Sombra promove património religioso esquecido

Pubicado em 30 January 2007

A igreja matriz de Santa Cruz, no coração da serra que une o Alentejo e o Algarve, recebe um concerto de flautas com repertório de obras de Manuel Rodrigues Coelho, Pedro de Araújo, António Carreira e outros compositores portugueses do século XVII. Unir a música, o património e a paisagem é o fio condutor de um projecto que promove o interior. Conta já com um público fiel.

O declínio do mundo rural, com o despovoamento que acarreta, está a conduzir ao abandono de parte considerável do património religioso português. Só no Baixo Alentejo, são mais de meia centena as igrejas, capelas e ermidas de grande valor cultural que se encontram hoje sem uso permanente – ou mesmo sem qualquer espécie de uso. Algumas delas estão classificadas pelo Estado como monumentos nacionais ou imóveis de interesse público, encerram verdadeiros tesouros de arte e constituem referências de primeira ordem para o conhecimento do nosso passado e da nossa identidade cultural. A situação não é nova, mas tem vindo a agudizar-se nos últimos anos, e suscita a preocupação dos responsáveis pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja.
Um caso paradigmático é o da igreja matriz de Santa Cruz, freguesia serrana do concelho de Almodôvar, já a tocar o Algarve. Este edifício histórico situa-se longe da povoação, isolado em pleno campo, pelo que permanece fechado ao longo do ano. Nas suas imediações existe uma fonte cujas águas possuem virtudes curativas – era noutros tempos procurada pelos leprosos para o alívio dos seus males. Não muito longe passa um velho caminho romano, por onde transitou D. Afonso III, em 1249, à frente do seu exército, por ocasião da conquista de Faro e Albufeira. Trata-se de uma jóia da arquitectura manuelina, com notável conjunto de pinturas murais e altares de talha, que tem sido alvo da senha dos ladrões. Em 2005 furtaram o sacrário e algumas colunas de retábulos, na mesma altura em que vários templos algarvios também foram vítimas de sucessivos roubos.
É esta igreja quase esquecida, sem luz eléctrica, sem fiéis, com os altares agora mutilados, que vai receber, em 3 de Fevereiro, um espectáculo do consort de flautas “A Imagem da Melancolia”. A iniciativa faz parte do 3.º Festival Terras sem Sombra – Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo, um projecto do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese e da Arte das Musas, com o apoio do Instituto das Artes do Ministério da Cultura, da Região de Turismo da Planície Dourada e das câmaras municipais dos concelhos abrangidos, que visa incorporar em percursos de turismo cultural e religioso algumas das principais igrejas antigas da região. Face ao abandono em que jazem edifícios notáveis, como a igreja matriz de Santa Cruz, torna-se necessário insuflar-lhes nova vida, um objectivo que une os esforços da diocese, do município e da terra. A música, integrada num ciclo temático coerente, representa uma aposta interessante para que isso aconteça. O Festival conta já com um público fiel, vindo não só do Alentejo mas de outras partes do país e da vizinha Espanha, que aprecia uma programação de alta qualidade, mas vai muito para além, nos seus pressupostos, da esfera do efémero.
Na realidade, o Festival Terras sem Sombra – e o esforço de afirmação de um território marginalizado que ele traduz – aposta no cruzamento de diferentes tradições musicais, religiosas e culturais, na atenção à diferença, na leitura do menos óbvio. Pela escolha dos diferentes lugares do Baixo Alentejo onde tem lugar, de forma itinerante, representa uma chamada de atenção para as nossas raízes mais profundas, em que se misturam, sem contradições, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. É também um apelo ao conhecimento do mundo rural e das pequenas comunidades, revelando alguns dos mais surpreendentes valores de um paraíso artístico quase perdido. Santa Cruz de Almodôvar, sítio mágico que a tradição associa à cura dos males do corpo e do espírito, afirma-se com toda a veemência de um símbolo nesta caminhada que visa preservar, divulgar e tornar acessível um património nacional em risco.

Foto: C.M. Almodôvar

Noticia publicada por:

Claudio J. - que publicou 1376 noticias no Alentejo Magazine.


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