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Eduardo Bettencourt Pinto

Pubicado em 27 November 2008

Poeta da Vida e do Mundo

Eduardo Bettencourt Pinto

Entrevista de Tiago Ribeiro

Entrevistar Eduardo Bettencourt Pinto e um prazer semelhante a possibilidade de ler os seus livros, sejam eles de poesia ou prosa, pois ha neste um domonio do portugues em que cada frase e pura arte. Embora vivendo no Canada, este suberbo autor tem nos dado livros tao profundos como a “Casa das Rugas” ou “Travelling with Shadows”, podendo tambem ser lido no Lusitania (www.lusitania.ca) onde publica poemas e prosa mensalmente.

(Entrevista a Eduardo Bettencourt Pinto)

Alentejo Magazine - Gostava de começar por lhe perguntar como olha para o Portugal de hoje em dia, tanto a nível social como cultural, sob uma perspectiva de imigrante no Canadá?

Eduardo Bettencourt Pinto - Como membro da Comunidade Europeia, Portugal tem-se modernizado muito ao nível das infra-estruturas. Há queixas, evidentemente, no sector económico no que concerne ao custo de vida, poder de compra, desemprego, etc. Na Cultura, mormente no sector da publicação de livros, passam-se momentos difíceis. São coisas que oiço quando vou a Portugal, e outras que vou lendo nos jornais. São impressões, no entanto, de quem vive fora, por isso um tanto lineares. Vejo Portugal como um país a modernizar-se, a avançar pelo século 21 com outros alicerces históricos, baseados na democracia, na abertura e acolhimento de outros povos.

Alentejo Magazine-
Como português, e sabendo quão poética é a sua escrita, gostava de saber como consegue manter um português tão puro tão “longe de casa”?

Eduardo Bettencourt Pinto
- Quem vive fora tem de fazer um esforço extra de modo a manter-se actualizado. Uma língua, qualquer língua, requer atenção e estudo. No meu caso, que escrevo todos os dias, essa necessidade requer maior cuidado. Leio muito, estou sempre rodeado de livros e revistas. A Internet tem sido também um espaço óptimo de consulta, uma ferramenta muito útil para quem se preocupa com este tipo de actividade intelectual.

Alentejo Magazine-
No livro “A Casa das Rugas” tem o continente africano como centro da narrativa. Tendo vivido em Angola e Zimbabwe, acha África um continente de nostálgica e literária influência? De que forma?

Eduardo Bettencourt Pinto-
No meu caso, África será definitivamente um espaço de aproximação e diálogo dado que nasci em Angola e lá vivi até aos vinte anos de idade, com uma pequena interrupção de dois anos e meio, tempo que vivi nos Açores com a minha mãe e irmãos. Quando se fala em nostalgia em relação a África, há sempre alguém que aponta o dedo e acusa de ser um sentimento doentio de quem teve e perdeu privilégios. Eu nunca os tive, tão pouco a minha família. Nunca me interessaram os valores materiais e até acho estranho que alguém necessite deles para se achar feliz. Falo de nostalgia porque me lembro da minha adolescência, da pureza dos meus ideais, de quanto amava aquela terra, a minha mãe negra. Não persigo exotismos de cartaz turístico ou falsas pretensões humanísticas. Angola foi e é parte de um mundo que habita o meu imaginário e do qual nunca me poderei apartar.

Alentejo Magazine-
Sei que publicou recentemente um livro de poemas bilingue intitulado “Travelling with Shadows”. Que o levou a querer partilhar a subtileza e elegância da sua poesia com os leitores ingleses?

Eduardo Bettencourt Pinto - Esta foi uma oportunidade que fui protelando até agora por falta de tempo. A poesia é um campo difícil em termos comerciais, e foi com uma certa relutância que me decidi avançar com este projecto. Mas não me arrependi. Neste livro tenho algum material novo, mas a maior parte dos poemas são uma recolha de dois livros pelos quais tenho um afecto particular. Neste momento trabalho num novo projecto, desta vez de ficção. Não sou pretensioso nem cultivo falsas expectativas. Sou apenas uma voz que tem encontrado outras plataformas de expressão e as quais me têm possibilitado diferentes oportunidades de diálogo.

Alentejo Magazine-
Voltando novamente a Portugal, que influência tem na sua escrita as lindas ilhas açorianas e a atmosfera que as caracteriza?

Eduardo Bettencourt Pinto -
Muita. Ligo-me aos Açores não apenas pelo vínculo familiar, mas também pela minha vivência com os Açores e sua cultura, e por tudo aquilo que transcende da sua mitologia e dos afectos que me são caros. São ilhas de gente muito sã e culta cujo convívio me tem engrandecido muito interiormente. Elas, as ilhas, são pequenos paraísos de uma beleza estonteante, espalhados pelo mar. Tenho muito orgulho nas minhas raízes açorianas.

Alentejo Magazine-
Disse certa vez numa entrevista que “Uma língua acarreta também diversidade no sentir, afinidades e perspectivas”. De que forma acha que a nossa forma de ser portugueses vem da nossa forma de nos exprimirmos e estarmos na nossa língua?

Eduardo Bettencourt Pinto
- Uma língua não consiste apenas num meio de comunicação, mas acarreta igualmente uma forte componente cultural. E uma sensibilidade. Aqui gostaria de falar também de certos atributos latinos, da influência religiosa, maioritariamente católica, do modo coeso como estão estruturadas as famílias, da preservação ancestral dos seus valores éticos e morais. Uma postura, enfim, latina, de expressão e modos de ser.

Alentejo Magazine- Falando novamente do livro “A Casa das Rugas”, há nele o fantasma do pós-guerra colonial. De que forma pode a literatura ajudar a enfrentar esses fantasmas da nossa história?

Eduardo Bettencourt Pinto- Quando escrevi “A Casa das Rugas”, procurei sobretudo contar uma história e não um painel de emoções antigas. Como autor, tenho a responsabilidade de retratar com a melhor fidelidade possível um tempo que passou. Há relevância nessa parte histórica de Angola, seja ela positiva ou negativa. Angola é um país muito martirizado e cheio de contradições. Mas amo-o como meu. Uma crítica justa e responsável é um acto de amor. Tenho ainda muito por escrever em relação a Angola. Fá-lo-ei porém no âmbito do meu afecto por aquela terra, cujo destino parece avançar por melhores dias. Enfrenta, como não podia deixar de ser, imensas dificuldades herdadas de uma guerra longa, incompreensível e destruidora, que se prolongou por mais de trinta anos.

Alentejo Magazine-
Nos seus poemas e prosa há uma busca quase existencial de algo; como define essa busca a nível pessoal e literário?

Eduardo Bettencourt Pinto-
Procuro sempre uma relação espiritual entre os vários elementos que compõem a vida. Privilegio a beleza humana e a dos lugares, a paz e a serenidade. E no entanto vejo-me atravessado pela violência diária deste mundo, pelo cinismo e maldade dos homens. Não canto as cinzas mas a luz. Não acredito em deuses de barro ou ídolos de carne e osso. Procuro o eterno, a voz de Deus sobre todas as coisas. Poucas coisas fazem sentido fora desse contexto.

Alentejo Magazine-
Qual acha que deverá ser a função de um escritor, viva ele em que época viver?

Eduardo Bettencourt Pinto-
O escritor tem que ser em primeiro lugar fiel à sua arte, buscando sempre novas formas de expressão, ser exigente consigo próprio, estar atento ao mundo que o cerca. Por último, um escritor não é um Messias, muito menos um cultor de harmonias. Sobretudo entretém, agita, e, por vezes, espicaça consciências.

Alentejo Magazine- Teria mais perguntas a fazer-lhe mas termino com esta: como homem de letras, e sabendo que muitos já reflectiram sobre isso, incluindo os Monthy Phytons, gostaria que me dissesse qual é o significado da Vida?

Eduardo Bettencourt Pinto-
É uma pergunta muito abrangente. Há ópticas diversas, ou seja, baseadas em conceitos filosóficos como, por exemplo, o Singularismo e o Existencialismo; ou na perspectiva de Platão, que vê a Razão como meio de se alcançar a Felicidade, sendo esta o principal motivo pelo qual se vive. Na minha óptica (que é cristã), estamos aqui de modo efémero. É uma passagem. Por isso cabe-nos a responsabilidade de dar significado àquilo que fazemos e vivemos sob o ponto de vista espiritual. Não me interessam os valores materiais; estranho a ganância, o protagonismo e a vaidade, que sempre vi como coisas bizantinas. Afasto-me dos coléricos e dos maldizentes. Busco a poesia, a harmonia e a extrema beleza da bondade. Pertenço a uma tribo de nómadas sentimentais que não tombam aos ais ao ultrapassarem as fronteiras geográficas onde nasceram. Este planeta é o meu universo e eu canto a vida por que passo.

www.eduardobpinto.com

Noticia publicada por:

Claudio J. - que publicou 1376 noticias no Alentejo Magazine.


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