
Vivemos num mundo em que o capital é rei e senhor, e foi devido a este que muito se tem sofrido nos dias de hoje e muito se sofrerá até o capital ter “coração”, se alguma vez o terá. Recentemente entrevistei Álvaro Santos Pereira, nesta descontraída conversa falou se de tudo, de livros a economia.
Esta é sem duvida uma das mais importantes entrevistas que fiz até agora, não só pela pessoa que entrevisto, mas também pelo que ele me disse e reflectiu sobre Portugal nas suas complexidades.
Alentejo Magazine- Fala-me um pouco das tuas origens coimbrãs e do que te levou a escolher o ramo da Economia a nível profissional.
Álvaro Santos Pereira (A.S.P) - Eu nasci em Viseu, mas fui viver para Coimbra aos 16 anos. Coimbra ainda é a cidade onde moro quando estou em Portugal.
Decidi escolher a Economia porque me interesso sobre as questões do desenvolvimento económico, tais como: porque é que alguns países são mais ricos que outros? Ou, porque é que a pobreza persiste em tantas partes do mundo? É por me interessar por estes problemas que me dediquei ao estudo e ensino da Economia.
A.M- Qual achas que deve ser a relação entre o cidadão normal e os seus economistas e banqueiros? Porque?
A.S.P- Acho que os economistas devem tentar explicar as questões económicas para os que não são especialistas. Porquê? Porque as questões económicas afectam a vida de todos e, por isso, todos nós beneficiamos se tivermos alguns conhecimentos económicos básicos. Os economistas também devem tentar ajudar (e criticar) as autoridades económicas a tentar formular as políticas mais adequadas para um país ou região.
A.M- O que te levou a escrever o 3 vezes editado “Os mitos da economia portuguesa”? e como foi a sua recepção?
A.S.P- O “Mitos da economia portuguesa” surgiu do convite do editor da Guerra e Paz para escrever um livro sobre a economia nacional. Quando me encontrei com o editor da Guerra e Paz para acertar a publicação de um romance (o “Diário de um Deus Criacionista”), surgiu a ideia para escrever um livro de economia. Como eu escrevia artigos de opinião para os jornais, tal opção fazia todo o sentido.
A.M- A palavra “ proteccionismo” aparece muitas vezes no teu livro “mitos da economia portuguesa”, porque achas que nos portugueses somos tão conservadores/ proteccionistas?
A.S.P- Acho que temos um Estado demasiado paternalista e protector, uma tendência que se deve provavelmente à ditadura do Estado Novo. Salazar pensava que o Estado (ou seja, ele) tinha uma função essencial para guiar os agentes económicos no seu dia-a-dia e que tinha que nos proteger da concorrência interna e externa. A ideologia que se seguiu à Revolução de Abril acentuou esta tendência, de modo que ainda hoje persiste a ideia que o Estado está sempre ao nosso lado para nos proteger de qualquer eventualidade. Ora, este paternalismo estatal excessivo é verdadeiramente contraproducente. O Estado português faz lembrar aqueles pais que mimam e tentam proteger os seus filhos em excesso, não os libertando do cordão umbilical quando é preciso. É isso que ainda se passa hoje com o nosso Estado. Esta é uma das coisas que é urgente mudar.
A.M- O livro “Os mitos da economia portuguesa” parece-me ir para além da economia estendendo-se aos problemas e mitos da nossa própria cultura portuguesa, achas que existe alguma luz ao fundo do túnel neste “breu” económico-cultural?
A.S.P- Sim, de facto alguns dos problemas organizativos que apresentamos têm origens culturais e sociais. Penso que progredimos imenso nas últimas décadas e que começa a haver alguma luz ao fundo do túnel nalgumas das nossas deficiências estruturais. Porém, ainda há muito a fazer, principalmente no que diz respeito ao nosso sector educativo, à Justiça, bem como em relação a muitas das nossas práticas organizativas.
A.M- Parece-me haver em ti algo de “desmistificador” na tua escrita, que outras razões te levam e levaram à escrita?
A.S.P- A nível da Economia, a minha intenção principal é explicar de uma forma informal as características da economia nacional, bem como contextualizar claramente os nossos problemas económicos. A ideia de desmistificar alguns conceitos existentes é exactamente demonstrar que muitas “verdades” sobre a nossa economia não o são, e que há muitos preconceitos que não têm fundamento.
A.M- Há uma questão por mais que pense nunca consegui ver resolvida ou conciliada que é e eu acho que me podes ajudar nela: pode um economista ser também um humanista? E como?
A.S.P- Claro que sim. Aliás, deve. Como já mencionei, a questão económica fundamental (e que deu origem à própria ciência económica) é saber porque é que algumas nações são mais ricas do que outras, e porque é que a pobreza persiste em mais de dois terços da população mundial. Ora, como é que é possível falar sobre estas questões se não se for humanista? Há alguma questão mais humanista do que esta?
A.M- Recuando um pouco no tempo e no espaço, quando sentiste a vontade de escrever e o que te levou a esta arte?
A.S.P- Sempre gostei muito de escrever. Desde muito novo que sempre tive a ideia de escrever. Para mim escrever é quase como respirar. Não consigo imaginar a vida sem escrever. Se fosse forçado a deixar a escrita, certamente que seria capaz de sobreviver. Mas não seria a mesma pessoa.
A.M- Que autores e livros te marcaram/moldaram?
A.S.P- Na literatura, claramente o Gabriel Garcia Marquez e o Salman Rushie, entre muitos outros.
Na Economia, o William Easterly escreveu o melhor livro sobre de desenvolvimento económico que conheço (“The Ellusive Quest for Growth) e o meu antigo orientador, Richard Lipsey, foi e é uma referência pessoal.
A.M-Voltando a economia, que América será esta, depois da crise do Subprime e da crise do credito, tanto a nível nacional como internacional?
A.S.P- Que América e que mundo, pois a crise está cada vez mais globalizada. As coisas claramente vão piorar antes de melhorar, tanto na América como na Europa. Esta é a maior recessão das últimas décadas e os ajustamentos irão continuar durante algum tempo. O principal efeito será um aumento do desemprego devido à desaceleração da actividade económica. O importante é aproveitar a crise para reformar e alterar o que está mal, tanto ao nível da regulamentação dos mercados financeiros, como do fundamentalismo do défice orçamental registado por Bruxelas.
A.M- De que forma achas que a nossa maneira de ser e pensar “aportuguesada” molda as nossas escolhas económico-sociais?
A.S.P- Molda principalmente em termos das nossas práticas organizativas e sociais. As nossas tendências para chegarmos atrasados aos nossos compromissos, para fazermos tudo em cima do joelho e para nos desresponsabilizarmos pessoalmente quando as coisas correm mal, são verdadeiramente penalizadoras da eficiência económica e da própria produtividade. Se queremos melhorar a competitividade da economia nacional, temos que melhorar as nossas práticas organizativas.
A.M-Sei que ensinas na SFU (Simon Fraser University) e na UBC (Universidade da Colômbia Britânica), fala-me destas e dos projectos e actividades que estas desenvolvem.
A.S.P- Sim, ensino macroeconomia e desenvolvimento económico nestas universidades. O grande atractivo de leccionar no estrangeiro é ao nível do apoio à investigação, que continua a ser mais elevado do que em Portugal. O apoio é financeiro, mas também em termos da redução da carga horária, que possibilita uma maior dedicação às actividades de investigação.
A.M- Como e escrever em português fora de Portugal? Escreve-se para lembrar o que deixamos ou por outros motivos?
A.S.P- Para mim, escrever literatura tem que ser na nossa língua mãe, pois a literatura vem de dentro de nós, da tal “alma” interior. Há escritores excelentes que o fazem noutras línguas (tais como Ha Jin, que já ganhou vários prémios literários americanos, apesar da sua língua mãe ser o chinês), mas eu não consigo. Quando escrevo romances com temas portugueses (implícita ou explicitamente), faço-o porque é uma realidade que conheço bem. Ou seja, faço-o para relatar experiências pessoais ou de pessoas que conheço.
Quando escrevo sobre a economia portuguesa, faço-o porque tenho interesse na matéria e porque é a minha pequena contribuição para o meu país.
A.M- Qual achas deve ser a “função” tanto do escritor como a do leitor?
A.S.P- O escritor deve escrever aquilo que lhe apetece. Não há regra para a escrita. Pode ser algo inventado ou sobre as nossas próprias experiências. Tudo depende de cada um(a) ou do livro em questão. O leitor deve ler aquilo que gosta. E deve ser crítico, pois a crítica é fundamental para o processo criativo.
A.M- Voltando a Portugal, porque achas que existe uma certa “barreira linguística”, por assim dizer, entre os economistas _ sem esquecer outras classes _ e o cidadão comum?
A.S.P- Acho que sim. E a culpa é nossa, dos economistas. Se alguém abrir uma revista da especialidade irá pensar que o que ali se escreve é tudo menos sobre pessoas e países reais. Os nossos modelos são frequentemente demasiado abstractos e teóricos, sem grande aplicação prática. As coisas estão a melhorar, pois nos últimos anos não só os modelos têm-se tornado mais realistas, mas também há cada vez mais economistas dispostos a explicar a linguagem económica para o público em geral. Esperemos que a tendência se mantenha, de forma a acabar essa mesma barreira linguística entre os economistas e o público em geral, pois ninguém ganha com a falta de diálogo e compreensão.
A.M- Para finalizar, que novas “desmistificações” tens planeadas para o futuro?
A.S.P- Em Janeiro vou editar um novo livro sobre a economia portuguesa, que tem por título “O Medo do Insucesso Nacional” e que tenta perceber as razões do mal-estar actual. O livro também apresenta soluções para a crise. Agora que esse livro já está acabado, regressei à escrita de um romance, que pretendo acabar no próximo ano.






October 10th, 2009 at 5:43 am
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