Contos de uma Vida
Henrique Padeiro
Entrevista de Tiago Ribeiro
“Quem conta um conto…” e, mas quem fala sobre si nem sempre consegue fugir de si mesmo, verdade seja dita. Recentemente tive a possibilidade de entrevistar através da net um jovem escritor, Henrique Padeiro, vencedor de vários prémios literários, tendo publicado recentemente o livro de contos “Guardião da Noite”.
Alentejo Magazine (A.M)- Que valor tem para ti a Cultura? Não só a dos livros, mas também as tradições, os contos populares entre outros?
Henrique Padeiro (H.P) – A cultura é a base de tudo na vida, é ela que nos guia, que nos diz quem somos e de onde vimos. Grande parte da cultura é transmitida verbalmente mas os livros trazem-nos a realidade de épocas distantes, quem nunca leu “Os Maias” e imaginou o Eça a beber vermute, quem nunca viajou nos poemas do Pessoa ou quem nunca se escondeu nas sombras das letras de Camões e se perdeu…? Os contos populares trazem-nos outra vertente, a do povo, das estórias das mezinhas… Sabes que quando vou a Fnac’s etc… e apresento o livro há sempre alguém que me pergunta – são contos para crianças? E eu respondo – não, é para adultos! E eles muito corados respondem – há então mete sexo…! E eu rio-me que nem um perdido… é engraçado ver a associação que ainda se faz aos contos, deve ser influência daqueles livros pequenos que se viam há uns anos que tinham uma rapariga em soutien na capa…
A.M – Como vez a relação entre os portugueses e os livros no Portugal de hoje em dia?
Tal como o fast food também há um fast read em Portugal, se leres um dos muitos livros que por ai há, não sentes um desafio na leitura, por alguma razão se lêem nos comboios, aquilo entra e sai e não fica nada… um livro deve ser um desafio. Os portugueses gostam de ler e de escrever, mas a cultura está-se a perder e o fútil vende-se… muito.
A.M – Para ti quais devem ser as funções de um livro, independentemente da classe ou idade?
H.P - Um livro tem de te fazer sonhar e pensar, tem de te ensinar, tem de ter escondida uma mensagem, é essa a graça de ler. Uma das maiores criticas que me fazem é que depois de lerem um conto, voltam a ler e reler e de cada vez que lêem têm uma outra percepção das palavras… a piada de ler é mesmo essa é o leitor se interessar e se envolver e querem mais…
A.M - Achas que uma sociedade afastada dos livros e uma sociedade ignorante e pouco auto analítica? E de que forma?
H.P - Obviamente que sim, os livros ou a escrita nas suas mais diversas formas é o que origina a percepção que o povo tem de si próprio, reparem que até as Revistas à Portuguesa, tem por base textos, o Teatro é uma paródia bem observada à sociedade, tudo gira à volta da escrita… Uma sociedade conhecedora de si própria, das suas virtudes e fraquezas é uma sociedade melhor e mais unida…
A.M - Mudando de direcção, mas não de tema, o que te levou ao mundo dos livros?
H.P - Na escola, no secundário, comecei a concorrer a concursos de Conto, do jornal da escola, em todos ganhei e em alguns fiquei em ex-aequo comigo próprio (enviava mais de um texto) a partir dai, tudo se desenrolou para concursos regionais e nacionais, que fui ganhando. É engraçado porque conheces muita gente porreira e viajas e ainda ganhas uns trocos.
Sabes que a escrita é um modo de fuga, é um descarregar de energias e frustrações e alegrias. Quem nunca quis amar alguém impossível ou criar, conceber a vida… quando escrevo sou o Deus das minhas palavras… há profissão melhor?
A.M - Quem mais te influenciou na escrita a nível pessoal?
H.P - Eu fui muito influenciado pelos clássicos, tanto portugueses como estrangeiros. A escrita do Eça é magnífica, a do Pessoa fenomenal, naquele tempo não havia o Office, nem cd’s ou pen-disk… já viram a capacidade que eles tinham de ter para organizar e escrever um romance… pois é…. William Blake foi um mágico, conheceu os céus e os infernos como ninguém e nunca saiu de Londres (a propósito, se forem a Londres façam o circuito do Jack o Estripador)…. Quem mais me influenciou, pessoalmente, foi o meu avô e foi de muitas formas, foi ele que me ensinou muitas coisas que lhe ensinaram a ele, foi ele que foi a primeira pessoa desde que me lembro que conhecia e que morreu, o primeiro homem (e único) a quem pensei, eu Amo-te. Foi nesse momento em que olhei para ele e pensei na morte e na vida que pensei, um dia vou morrer.
A.M - Quais são os teus autores de referencia? e porque os tomas como tal?
H.P - Não me quero repetir, mas o Eça, o Pessoa, o Camilo, o Camões…
A.M - Como defines o que escreves? Tanto a nível de conteúdo como de estilo?
H.P - Eu gosto de pensar que sou um escritor surrealista, escrevi um livro de contos que tem um fio condutor que não existe, que subsiste, como a vida. Sabes que o Conto permite-te explodir de sentimentos e pôr tudo o que sentes, como sentes, no papel, a escrita fica quase na esfera da prosa poética. A morte está sempre presente, umas vezes óbvia, outras dissimuladas, quase não dás por ela. Quando estiveres longe do livro e a pensar nele, vais descobrir novos pensamentos, novos mundos e novas vidas… Estou a ultimar um romance e a experiência já é outra, a escrita é mais pensada e menos explosiva. Costumo comparar o Conto aquelas paixões de relance em que vês uma rapariga pela primeira vez, olhas para ela e naquele instante o mundo pára e ela olha também para ti e mais ninguém existe e apaixonam-se os dois e sorriem comprometidos e depois ela desaparece e nunca mais a vês e ficas a pensar…
A.M - Achas que os livros/contos tem um “fio condutor” ou algo que os liga entre si de alguma forma? O quê?
H.P - Pessoalmente acho que não, as pessoas tendem a explicar tudo a dissecar as palavras e a ordem das frases. Por que não aproveitar para ler e desfrutar. Cada texto é um texto, podem-se interligar entre si e fazer um livro de contos por haver alguma semelhança entre os temas, mas o fio condutor, o verdadeiro fio condutor é o leitor que o cria…
A.M - Para finalizar, para aqueles que tem o desejo de escrever e não sabem por onde começar ou como começar, que palavras tens para eles?
H.P - Comecem a concorrer a concursos, não se assustem se não ganharem, não percam a esperança… Leiam muito (autores Portugueses) principalmente.
Como em tudo na vida, não se pode desistir, é quase como ver um jogo de futebol, quando o jogador falha um golo há sempre o Português que diz – eu chutava, o outro que diz – eu fazia falta! e por ai além… mas quem está lá é que sabe e naquele segundo tem de tomar uma decisão e para tudo na vida é assim há sempre quem goste e quem não goste, mas perseguires o sonho… estás a meio caminho…





