Entrevista de Tiago Ribeiro, correspondente no Canadá
As palavras moldam-nos e através delas cada cultura partilha o que há de mais essencial nela, basta prestar atenção. Humberta Araújo é jornalista, natural do Canadá.
Na sua entrevista a Tiago Ribeiro, correspondente do Alentejo Magazine no Canadá, Humberta Araújo fala do seu percurso profissional, cultura e da sua ligação a Portugal.
Alentejo Magazine (A.M)- Podes-me falar um pouco das tuas origens e como mesmo nascendo no Canada, mantens um contacto directo com a cultura portuguesa?
Humberta Araújo(H.A) – Quero agradecer-te esta oportunidade e louvar o teu trabalho e interesse pelas raízes portuguesas. Quanto às minhas origens, os meus pais imigraram para a British Columbia em 1960 e um ano mais tarde nasci em Vanderhoof, BC, local que deixei aos 4 anos e para o qual nunca mais voltei. Espero visitar Vanderhoof num futuro próximo. De lá os meus pais vieram para Montreal e dois anos depois regressaram à Ilha de S. Miguel, onde vivi até aos 24 anos, altura em que decidi visitar o Canada. Em Montreal estudei “Communication Studies” na Concórdia e mais tarde Relações Internacionais na Queen’s University em Kingston. Regressei várias vezes a Portugal onde segui a profissão de jornalista na RTP e em diversos jornais e rádio. Por este motivo sempre continuei ligada à cultura portuguesa, em especial a dos Açores. Interessante o facto da distância ter aguçado o meu interesse pela cultura lusa. Mantenho contactos fortes com os Açores e participo, sempre que possível, em manifestações culturais de raíz portuguesa em Toronto. A literatura e o meu gosto pela escrita ajudam-me a manter os laços culturais.
(A.M)- Como foi crescer no Canada vivendo entre duas culturas? E como e que eles te moldaram na pessoa que te tornas-te?
(H.A) - A minha experiência, como se pode ver, foi um pouco diferente. Mas sinto-me sempre dividida entre duas culturas, dois modos de viver e sentir. Acho que é um peso e um dilema muito grande para qualquer imigrante. Mas é também um desafio que pode ser aproveitado para o enriquecimento pessoal e profissional.
(A.M)- Que valor tem para ti a cultura portuguesa? E como vês o Portugal de hoje em dia?
(H.A) - A cultura portuguesa faz parte da minha pessoa. Eu sou cultura portuguesa. Mesmo que fosse meu desejo, não poderia dissociar-me da cultura portuguesa. Porque vivi um pouco cá e lá tenho uma percepção real do Portugal da actualidade, particularmente dos Açores. Sem dúvida é um mundo renovado, nada do que os primeiros imigrantes deixaram quando por razões económico-sociais viram-se obrigados a deixar o país. Portugal é hoje um país moderno, reconhecido internacionalmente; Um Prémio Nobel da Literatura; Inovações científicas e tecnológicas reconhecidas internacionalmente; Políticos que desempenham importantes posições em organismos europeus. Existem ainda muitos problemas em Portugal e a crise internacional não está a ajudar a que os mesmos sejam ultrapassados. Todavia, hoje podemos ter orgulho das nossas raízes.
(A.M)-Sendo jornalista, que valores ou ideais te movem no teu trabalho? E o que procuras alcançar em cada projecto que fazes?
(H.A) - O jornalismo nasceu como uma forma de desmascarar o que sempre considerei injustiças. No Liceu comecei a escrever uns artigos de opinião com um pseudónimo. A resposta foi fenomenal e vinha de indivíduos, que representavam uma forma de pensar e ser que eu, na altura com os meus 20 anos, jovem, livre e movida por princípios de verdade, justiça e acreditando no direito de cada pessoa a uma informação verdadeira, disputava. A resposta foi tal que me moveu a prosseguir o jornalismo e a lutar pela verdade. Não tem sido fácil. Actualmente, para além da informação, acredito no poder formativo do jornalismo e pretendo facultar informação variada aos meus leitores para que se possam defender e equipar dos mecanismos necessários para a defesa dos seus direitos e cumprimento dos seus deveres. A participação cívica é importante para a comunidade, mas isto só será possível se os imigrantes conhecerem o país em que vivem, as suas leis, e os mecanismos existentes. Este tem sido um objectivo que pretendo atingir no jornalismo que pratico.
Em Toronto e, durante os dois anos que fui responsável pelas questões comunitárias no Jornal Nove Ilhas tentei também e, de uma forma profissional, dar a conhecer a cultura portuguesa aos portugueses nomeadamente aos jovens. Vou iniciar um projecto bilingue “mentorship through culture” para a juventude lusa.
(A.M)- Qual foi o projecto jornalístico que te deu mais prazer fazer e porquê?
(H.A) - O meu trabalho na televisão portuguesa foi bastante compensador pois deu-me oportunidade de conhecer de perto a realidade de muitas localidades da ilha de S. Miguel. Durante um ano fui produtora e apresentadora de um programa cultural que estendeu este contacto noutras ilhas.
A minha passagem pelo Nove Ilhas foi bastante interessante pois deu-me a oportunidade de conhecer melhor a comunidade portuguesa de Toronto e o jornalismo que aqui se faz. Mas o meu grande projecto aproxima-se e vai para a comunidade jovem lusa.
(A.M)- Fala-me um pouco do teu blog http://cunnusreborn.blogspot.com/, nascido em 2005, parece ser um blog cheio de nostalgia e portugalidade, o que te levou a criá-lo e como é recebido ele na comunidade?
(H.A) - O meu blog, é um espaço onde sempre que posso dou a conhecer aspectos da comunidade, de mim própria e do meu povo. Mas é um espaço restrito onde só bloguistas podem aceder e claro não é um meio acessível à maioria dos portugueses, ainda pouco conhecedores da internet, com excepção dos jovens, e estes, na sua maioria, acedem a serviços em inglês.
(A.M)- Sei que também és escritora, não só jornalista, fala-nos um pouco do que te moveu a escrever e sobre os principais temas presentes nestes?
(H.A) - Desde a escola primária que escrevo poesia. Gosto de contos, tenho alguns projectos para um romance. Publiquei dois livros infantis, um deles bilingue e agora estou a trabalhar numa “novel” em inglês para jovens sobre a vida de Cristóvão Colombo quando jovem. Tenho alguns poemas publicados em revistas canadianas. Os temas por vezes são pessoais, por outras vezes reflectem o mundo à minha volta.
(A.M)- Qual e o teu segredo para manteres o teu português tão puro e imaculado? Como fazes para o permanecer assim?
(H.A) - Estudei em Portugal e a minha língua mãe acaba por ser o português. Todavia, necessito de manter sempre a leitura em dia, pois com o tempo e a utilização do inglês acabamos por perder algumas regras. Admiro o teu esforço e a tua luta para escreveres em Português. Este é um esforço de louvar da tua parte.
(A.M)- Quais são os teus autores favoritos, portugueses/internacionais? E o que te atrai neles?
(H.A) - Esta é uma pergunta difícil para responder pois o leque é grande. Mas os meus favoritos são livros sobre a condição feminina no mundo, romances históricos e tudo o que tenha a ver com mistérios da Idade Média. Estou agora a ler muito sobre a altura dos descobrimentos europeus durante os séculos XV e XVI e o Renascimento.
(A.M)- Além da função estética, qual achas que devem ser as funções das artes na sua relação com a audiência?
(H.A) - Deve mover as pessoas, incentivar a reflexão e revolucionar formas de pensar e ver o mundo.
(A.M)- Para finalizar gostava de te fazer uma pergunta “intemporal”, para ti, e a arte que molda o mundo ou o mundo que molda a arte?
(H.A) - Esta é uma pergunta com duas faces. Todavia, o ser humano como produtor de arte resulta do mundo em que vive. O criador é movido pelo ambiente que o rodeia e a sua arte retrata o mesmo. Todavia, existem artistas que renovam, que trazem algo nunca visto, que revolucionam a forma de ver e sentir o mundo. Por isso mesmo são eles a moldar o mundo que depois deles nunca mais é o mesmo.





