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Tiago Ribeiro entrevista… Isabel Duarte

Pubicado em 11 May 2009

Isabel Duarte mora no Brasil e tem muito para contar, deste uma infância passada num Portugal pobre, uma experiência directamente pessoal com o sistema de Salazar, sem nunca esquecer a sua fuga de liberdade para o Brasil que a transformou.

Alentejo Magazine (A.M)- Fala-me um pouco do Portugal do teu tempo de infância e das transformações que presenciaste.

Isabel Duarte- Em primeiro lugar agradeço a oportunidade e quero louvar o teu interesse pelos emigrantes.
Os meus pais eram portugueses. A minha mãe de Aljustrel e meu pai de Almada.
Eu nasci em S.Paulo, Brasil, durante a revolução constitucionalista de 1932 e foi por causa da revolução que voltámos para Portugal.
Fomos viver em Almada numa quinta, onde ficámos até eu ter 8 anos de idade.
Os meus pais venderam essa quinta e compraram um restaurante na Fonte da Pipa. Era um lugar isolado, onde só havia a companhia de pesca, a tanoaria, o cais e a praia. Por outro lado, a movimentação do cais, os pescadores, os marinheiros, davam vida ao lugar.
Era a época da guerra, havia racionamento e contrabando de géneros alimentícios.
E, o pior de tudo, vivia-se a ditadura Salazarista, eu ouvia as notícias da BBC e da Rádio Voz de Moscovo com o noticiário da guerra.
Havia exercícios de simulação de ataques aéreos, tropa nas ruas (os famigerados legionários). E havia a PIDE, que prendia gente por tudo e por nada. Os jornais eram censurados e os escritores perseguidos.
As associações e as cooperativas eram muito visadas, mas foi nas bibliotecas que eu assisti a palestras de autores como Romeu Correia e Alves Redol e lá cheguei a presenciar a prisão de alguns amigos meus.

(A.M)- Onde estavas no 25 de Abril? E como acompanhastes esses acontecimentos?

Isabel Duarte- Eu já estava aqui no Brasil, aonde cheguei em 1973.
Acompanhei, emocionada, as reportagens da tv, do povo nas ruas, festejando o sucesso da revolução dos cravos.
Não voltei para Portugal devido ao facto de ter o casamento desfeito e por acreditar, que o meu lugar era aqui onde eu tinha nascido. Fugi de Portugal, do Portugal geográfico, mas a alma portuguesa veio comigo na bagagem.
E sou como tantos outros, um ser transplantado, com um coração português a bater no meu peito brasileiro.
Assim, viajo dentro e fora de mim, descobrindo e descobrindo-me nas ruínas aqui deixadas pelos portugueses.
O país de Abril também foi sonhado por mim.
Nasci brasileira, mas o sangue é português, e a alma acho que não tem nacionalidade.
Continuo fiel ás raízes, continuo fiel à infância. A pátria para mim é gemelar, mas não é um lugar abstracto, é um chão concreto, um caminho de duas vias, às vezes um tanto áspero, mas recheado de marcas afectivas. As minhas raízes estão presentes na minha memória, ainda que sejam divididas entre Portugal e o Brasil.
E vejo Portugal com a importância merecida por sua história, tendo assento entre as nações.
Acredito que ainda está na memória dos portugueses da geração de 70-80 o 25 de Abril e a afirmação clara dos desígnios traçados nessa altura pelo povo português.
Na verdade, o povo, o País continua à espera que se instale uma política virada para o bem-estar dos portugueses, e não aquela política que privilegia o grande capital e uma classe privilegiada, a da gestão de bens e serviços.
Nossa consciência mantém viva a promessa do Portugal de Abril, que nos deu  direitos, e a esperança e a confiança num futuro melhor.
Que se cumpra o Portugal de Abril!

(A.M)- Como tem sido viver durante tanto tempo no Brasil? E de que forma isso alterou a tua visão do mundo e do ser humano?

Isabel Duarte- Cheguei ao Brasil para passar um mês em casa dos meus padrinhos de baptismo, mas arranjei trabalho como modelista e decidi ficar no Brasil, dando fim a um casamento de 22 anos. Passei algumas dificuldades no início, mas logo consegui melhorar a minha situação. Trabalhei em alta-costura, como estilista e modelista.
Ao mesmo tempo procurei reciclar-me, fazendo diversos cursos de arte, e sobretudo de filosofia.
Depois de 22 anos de trabalho em S. Paulo, senti necessidade de sair da vida agitada de S.Paulo, e procurei um lugar onde pudesse montar o meu atelier.
Vim para Minas Gerais, para um distrito de Ouro Preto.
E aqui construí a minha casa e conheci gente de todo o lugar, com uma forma de vida alternativa. Isso enriqueceu-me como pessoa e despertou as minhas preocupações sociais.
No contacto com a natureza, se encontram misturados poesia, harmonia e colorido. Aqui neste lugar convive-se de perto com o imaginário e o fantástico que a natureza nos reserva. Isso levou-me a dar aulas de desenho, pintura e bordados, com esses cursos, as crianças e as mulheres aprendem a trabalhar com artesanato, conseguem ver um pouco além das coisas, encontrar uma janela de onde partirão em direcção à vida.

(A.M)- Porque é que veio tanta gente de fora para este lugar?

Isabel Duarte- Vieram como eu vim, à busca de um sentido para a vida.
E ficaram, fizeram as suas casas, criaram os seus filhos, desenvolveram o artesanato em prata, que ensinaram aos nativos da região.
Se na boca de alguns chamá-los de “hippies” era ofensa, eles levaram isso como coisa aceite. No começo não podiam deixar de sentir um certo mau estar, mas seguiram guiados pela escolha que haviam feito.

(A.M)- Mas, o que é que eles queriam? Sonho? Poesia? Utopia?

Isabel Duarte- Eu acho que eles podem falar de experiência, de viagem interior, de vida, Porque é bom ver a luz, sentir o calor, o cheiro da terra molhada, Ver as flores a cheirar ao espanto de existir e ao sonho das coisas naturais.
Isto aqui para mim é bem mais do que um sonho de minha imaginação. É que não há sonho que se compare a este arrepio, a este horizonte de Sto António do Leite.

(A.M)- Podes-me falar um pouco da região onde vives e da presença portuguesa aí e de como isso marca/marcou a cultura da região?

Isabel Duarte- Por volta de 1693 foi encontrado ouro em Ouro Preto e a época em que teve mais abundância foi entre 1725 e 1750.
E, como lá não se podia plantar nada, era aqui nesta região que vinham se abastecer.
O nome deste lugar é devido ao facto dos soldados de cavalaria virem aqui fazer as suas cavalgadas e pararem para comprar leite. E Santo António do Leite, por causa do português António Sarmento, que mandou construir a igreja para o seu santo protector.
Os primeiros moradores eram descendentes de portugueses e árabes e fixaram residência aqui em 1750 num arraial de Bandeirantes.
Aqui foram construídos os moinhos de água e toneladas de cereais eram aqui beneficiados para abastecer Ouro Preto.
Aqui havia uma passagem obrigatória para o Rio de Janeiro, que se chama estrada imperial, porque D.Pedro passava sempre por aqui e parava para selar os seus cavalos.
Ainda existe a casa onde ele se hospedava, que pertenceu ao Padre Vidal e ficava numa fazenda enorme; a casa era de cantaria com senzala e igreja. Agora é uma pousada.
E ainda se encontram vestígios de um antigo quilombo, aonde os escravos se refugiavam, quando fugiam de Ouro Preto.
Voltaram a extrair ouro por aqui perto e eu receio que vão esburacar a serra do Catete, que é o belo visual dos fundos da minha casa.

(A.M)- Tens saudades de Portugal? Como o vez, e o que ele se tornou  desde que emigraste?

Isabel Duarte- Tenho saudades de Portugal, mais da Fonte da Pipa, evidentemente, pelas reminiscências de infância.
Tenho lá uma filha, dois netos e dois bisnetos. Agora com a net estamos sempre em contacto.
O meu sonho era poder passar metade do ano aqui e a outra metade em Portugal.

(A.M)- Sei que fazes artesanato, como é vista tanto pela população como pelo governo a Arte em Minas Gerais? Há apoios?

Isabel Duarte- Ouro Preto vive exclusivamente do turismo e de algumas empresas de minério. Aproveitando o fluxo de turista durante todo o ano se desenvolveu o hotelaria e o artesanato. O mais forte de todos os trabalhos é a ourivesaria, devido à abundância de pedras preciosas. Há também uma forte produção de trabalhos em pedra sabão: esculturas, fontes, panelas, etc.
Aqui onde eu moro fazem jóias artesanais em prata, objectos em cerâmica, máscaras venezianas, peças de bambu e bordado.
Em 2001 apresentámos um projecto de artesanato à Prefeitura de Ouro Preto, que foi rejeitado por falta de verba.
Em 2006 foi apresentado um novo projecto que foi aprovado, e muitos cursos foram oferecidos à comunidade.
Em 2007 novo projecto foi apresentado, mas por questões burocráticas, ficou engavetado e perdeu a verba destinada.
Agora temos aqui uma feira de artesanato, que funciona todos os fins-de-semana. Mas, devido à crise financeira, as vendas caíram, o que fez alguns artesãos saírem do artesanato para trabalhar em mineração.

(A.M)- Como é o Brasil real, tirando todas as máscaras vendidas pelas telenovelas?…

Isabel Duarte- O Brasil é um grande país, grande demais até, para ser governado. Há muita desigualdade social, o que gera a marginalidade que tanto preocupa as autoridades. Não há segurança nas cidades. Há assaltos até em condomínios fechados. As favelas são dominadas por traficantes e pelas milícias armadas, que formam um poder paralelo, que consegue até eleger representantes no governo.
Mas, é lamentável que a grande media divulgue os escândalos financeiros e as chacinas e esqueça que os brasileiros têm muito optimismo e muita criatividade. Tem muita gente mobilizada em acções de cidadania e tem muitos empreendedores acreditando no potencial do país.
E, devido à força da economia brasileira, é possível que o Brasil saia desta crise dentro em breve.

(A.M)- E falando do Brasil é impossível não falar do misticismo popular, que importância tem isso para ti e como é visto isto em Minas Gerais?

Isabel Duarte- O misticismo em Minas é muito forte.
Existem localidades com eventos e fenómenos pouco comuns. Várias cidades como Brasília, Chapada dos Guimarães, São Tomé das Letras encontram-se sobre imensas jazidas de cristais, e esta poderia ser uma das causas apontadas para serem especiais do ponto de vista místico.
Outros locais encontram-se perto de florestas densas, aglutinando o poder shamânico dos elementos e entidades espirituais existentes entre as plantas e os animais. Qualquer que seja o motivo para estes locais serem especiais, já se tornaram o destino de um tipo particular de turista, o buscados místico, que traz em sua bagagem uma cultura de história, hermetismo e a necessidade de contactos em planos elevados, a realização de rituais ou a necessidade de isolamento para meditação.
O misticismo do brasileiro é ecléctico e contagia as pessoas que nos visitam. Temos aqui: Ufologia, Radiestesia, Pedras e cristais, Astrologia, Meditação, Numerologia, Feng-Shui, Anjos, etc.

(A.M)- Que autores mais te marcaram e que tem eles que te atrai?

Isabel Duarte- Na minha juventude li bastante literatura portuguesa, brasileira e americana.
Mas foi a obra de Jorge Amado a que mais me marcou. Até 1972 já tinha lido todos os livros dele até Teresa Batista cansada de guerra. E de todos os livros o mais significativo foi Jubiabá.
Acompanhei a trajectória política de Jorge Amado, sua luta a favor dos plantadores de cacau, dos pescadores, dos camponeses e dos marginais. Depois que ele abdicou da crítica social violenta, apareceram os seus romances, que foram aproveitados pelo cinema e telenovelas.
A sua discrição de Salvador e dos areais da Baía, me levavam para lá. E quando lá cheguei identifiquei até o cheiro de dendê do acarajé que as baianas fritam nas ruas.
Das personagens em Jubiabá, destaco Balduíno, que teve de facto uma trajectória em ascensão. Nasceu pobre no morro, mas era um menino diferente de todos. Sempre foi bom de “capoeira” e no violão, ficou célebre com os sambas que compôs. Também tinha grande sucesso com as mulheres. Teve um filho para criar, o que lhe deu nova consciência e o levou em direcção à consciencialização política e actividades em prol do bem comum.Ele foi o meu herói.

(A.M)- Em relação à gastronomia de Minas, fala-me um pouco dos pratos tradicionais dai e da sua possível origem, e quais mais te agradam?

Isabel Duarte- A gastronomia de minas é bem tradicional, porque é a mais característica do Brasil. Tem origem na época dos escravos, o ciclo do ouro, das pedras preciosas, e dos lugares onde se escreveram muitas páginas da história brasileira, como Ouro Preto, Diamantina, São João del Rei, Tiradentes, etc.
O prato “feijão tropeiro” era feito pelos homens encarregados do transporte do ouro desde as minas até à capital, Rio de Janeiro.
A cozinha mineira é toda baseada em produtos de fundo de quintal, o porco, a galinha, o quiabo, a couve, o fubá. Por isso mesmo é simples, mas de sabor inigualável e marcante.
A cozinha mineira seduz principalmente pelos aromas, que não saem da memória de quem já sentiu o cheiro de um lombinho assando no forno, do torresmo saltando na pururuca, numa velha panela de ferro, da linguiça que sempre acompanha. As panelas ficam horas sobre o calor do fogão de lenha e liberam aromas que calam fundo na memória de quem já caminhou displicente pelas ruas de uma cidade do interior mineiro.
O prato que eu mais gosto é frango com quiabo.

(A.M)- Quem é para os Mineiros o Tiradentes e que influência teve e tem ele na cultura e historia de Minas Gerais?

Isabel Duarte- Tiradentes é um herói nacional e mudou a história do Brasil, não só a de Minas Gerais.
Todos os participantes da Inconfidência Mineira foram presos, julgados e condenados. Onze deles receberam sentença de morte, mas D. Maria I, rainha de Portugal, modificou a pena para degredo perpétuo em outra colónias portuguesas em África. Só Tiradentes teve sua pena de morte mantida.
Ele era precisamente o mais pobre e o mais entusiasmado com a ideia de tornar o Brasil um país independente.
Percorrendo o país como mascate, e depois como militar encarregado de proteger o caminho que liga Minas ao Rio, Tiradentes impressiona-se com a pobreza e a exploração do povo.
Influenciado pelas ideias iluministas da revolução francesa, Tiradentes prega a revolução nas tabernas, bordéis e casas de comércio.
Mas, a Inconfidência Mineira não foi uma revolta de carácter popular. Visava apenas o fim da opressão portuguesa, que prejudicava a elite mineira.
Aconteceu a traição do português Silvério dos Reis, cujo objectivo era conseguir o perdão para as suas dívidas, o que realmente obteve, com a denúncia da revolta.
Tiradentes foi executado em 21 de Abril de 1792.
Mas a independência do Brasil só aconteceu em 1822, com o grito do Ipiranga.

(A.M)- Para terminar gostava de saber, depois de uma vida tão longa, complexa e interessante como a sua Isabel, pode partilhar com os leitores o segredo de saber viver bem e feliz?

Isabel Duarte- Pelo que trago da minha experiência, a procura de uma vida plena, com significado sempre renovado, é bem possível de se realizar.
Todos os caminhos são importantes, se nos ajudam a crescer como pessoas, a compreender melhor, a realizar-nos mais, a vivenciar formas mais ricas de comunicação e amor.
O melhor que podemos fazer pela sociedade, pelo mundo, pela família e por nós mesmos, é sermos pessoas mais evoluídas, mais maduras, mais humanas.
Podemos conhecer mais e experimentar novas formas de viver, pela acção, pela reflexão, pela intensa comunicação com as pessoas, e até pelo isolamento, pela adesão a uma religião ou a uma filosofia humanista.
A vida é como um lento desfolhar de novos significados, cada camada descoberta leva-nos a novas perspectivas, ao aprofundamento de novas dimensões.
Aprenderemos sempre com cada circunstância que se nos apresente:
Procurar viver com simplicidade, menos apegados aos bens e ao poder.
Ir na contra mão do consumismo, da posse, da ostentação.
Mudar a nossa vida até onde formos capazes, para encontrar uma nova forma de comunicação, uma nova identidade.
O que eu posso compartilhar com todos é que a felicidade está em coisas simples, e na devoção e consideração pelo outro.
É estar aqui sentada na minha sala, enquanto escuto a aragem da brisa nas árvores e escutar também o silêncio interior.

Noticia publicada por:

Claudio J. - que publicou 1376 noticias no Alentejo Magazine.


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